14/12/15

O Despertar





 Entrei a medo. Uma lamparina iluminava vagamente o interior mostrando uma pequena cómoda e pouco mais. Na parede uma imagem protectora.

 Olhei para ti. Deitada na esteira, aguardavas-me como se esse acto fizesse parte do teu dia a dia. Confesso que bebi um pouco para ter a coragem suficiente para te bater à porta. Cá fora, o bulício próprio das noites quentes de África, homens procuravam mais uma noite de prazer.

 De vez em quando gritos ecoavam, uma mão caía com força na cara de uma mulher obrigando-a a prostituir-se para os seus vícios.

 Em cada porta havia um corpo desgastado pelo tempo aguardando que um olhar se voltasse para ele a fim de que mais uma migalha de pão pudesse ser tragado pelo candengue que na escuridão da cubata a tudo assistia.

 Mas tu não, aguardavas-me silenciosa perscrutando-me com os teus olhos negros. Sinto que sorriste ao de leve ao sentires a minha atrapalhação. Fizeste-me sinal para me sentar a teu lado.

 Deslizaste a mão suavemente pelo meu corpo suado. Corpo imberbe ainda, onde aqui e ali um pequeno tufo de pelos anunciava o fim do adolescente e o principio do homem.

 No meu jeito desastrado, como a descobrir a essência do corpo de uma mulher, procurei corresponder mas, os sentidos nublados pelo etílico inibia-me o gesto, o movimento e, a mão, quedou-se nos teus peitos hirtos.

 Pouco a pouco foste-me retirando cada peça de roupa, o teu corpo de corça enroscou-se no meu, os sentidos foram despertando lentamente como se a fronteira existente entre o adolescente e o homem fosse um pequeno abismo que tivesse que ser transporto não de um salto mas sim, como se tivesse que contornar cada obstáculo, devagar, devagarinho saboreando ao máximo o abandono do corpo de menino.

 Depois o êxtase, o clímax, deitado a teu lado, o meu corpo de homem abraçou o teu cor de ébano e adormecemos profundamente.

14/05/15

Esta Noite


Esta noite
no silêncio destas paredes sombrias
cheias de palavras consumidas
a lua dança com gestos de encantamento
e as estrelas sorriem de prazer

Esta noite
invento-te nesta distância magoada
onde as palavras repousam
nos lábios ausentes que riem e se alimentam
de sabores sonhados

Esta noite
arde uma fogueira de nostalgia
e o mistério absorvente da tua luz
entra em mim mansamente

Aqui
longe de ti e de tudo
sinto-me bem dentro de ti
e deixo-me ficar

António Sem

13/05/14

Detalhes



Quando te vi
Cofiei a minha rala barba
lembrou-me sonhos do passado
quando a roçava no teu corpo
e um frémito te percorria
como se nada mais houvesse
senão nós dois unidos
no prazer da carne.

Quando te vi
lembrei-me que de nada valeu
todas essas entregas,
da barba mal feita
da força dos sentidos
do amor nas giestas.

Quando te vi
tu já não existias
eras miragem
das noites ao luar
de um tempo que se foi.
Agora que não te vejo
De ti só me restam…
Pequenos detalhes!

10/03/14

Renascer...





Está a chegar a alegria da cor. A natureza vai-se transformando. Os rebentos das sementes deram lugar a caules encimados por flores.

Os cardos deixaram de ser pardacentos e abrem-se numa multiplicidade de coroas violetas.

As crisálidas estão na última fase de maturação. Dentro de poucos dias, milhares de imagos surgirão das suas entranhas e, esvoaçando, entrarão no frenesim da procriação.

A Primavera é vida que renasce e, com ela, renascemos nós!

23/09/13

História de um Cavalo Triste

Já tinha sido grande. Teve as luzes da ribalta centradas no seu porte majestoso, no seu cavalgar imperial, no seu trotar em compasso com as músicas de grandes clássicos, desde Schubert a Chopin.

Fazia as delícias da garotada com a sua pelagem bem tratada. A sua crina enfeitada fazia-o inchar de orgulho, era um esbelto e belo cavalo.

Os anos foram passando, as luzes foram apagando, ele foi envelhecendo. Já não era o que tinha sido. Mas mantinha a postura, orgulhoso de si mesmo, pelo que fora, pelas pessoas que tinha deixado felizes, pelo percurso da sua vida.

Um dia venderam-no. Passou a puxar carroças. Enquanto nos seus tempos áureos o chicote de quem o tinha simbolizava um gesto nunca cometido, agora um outro chicote chicoteava-o para ser mais presto no andar.

Aproximei-me deste cavalo. Magro, com as costelas à mostra, tentava comer a erva que despontava naquele terreno junto a um ribeiro de água pouco recomendável. Não havia feno que lhe enchesse o corpo, que lhe cobrisse os ossos, que lhe desse a dignidade nunca perdida, mas esmorecida pela triste vida que levava. De um jovem garboso, restava um velho não acarinhado, só lhe restava esperar pelo fim da vida.

Deixou-me chegar ao pé dele. Virou a cabeça para mim, olhos nos olhos contemplamo-nos por instantes e pensei ver uma lágrima, a escorrer-lhe pelo rosto.


Fotos e Montagem (lágrima): Mário Lima