13/10/12

O Lobo Solitário

Tema dedicado ao amigo Albisio Fernandes Magalhaes

Ele era o único da ninhada de três que tinha o pelo preto. O seu irmão e irmã eram iguais a tantos outros lobinhos nascidos naquela alcateia. Cresceu e, como todos, foi aprendendo com a brincadeira o que lhe estava reservado para o futuro. Mas ele era diferente. Afastava-se da segurança que o grupo lhe oferecia e explorava as cercanias, penetrando cada vez mais na floresta ou na estepe que no inverno se cobria de neve, obrigando a alcateia a percorrer longas distâncias para novas pastagens.

Formada por muitos indivíduos, a alcateia manteve o seu território afastado de outras alcateias que, de vez em quando, atacavam na tentativa de ocupação. Até que uma doença foi dizimando o grupo. Enfraquecidos, não conseguiram resistir a uma nova investida de um grupo mais numeroso e tiveram que fugir, deixando para trás o seu líder morto.

O lobo preto não seguiu com o grupo. Tinha chegado a hora dele partir e encontrar uma nova alcateia para poder acasalar.

Ao acaso foi percorrendo a estepe já com o seu manto branco. Um som chegou-lhe aos ouvidos, o som de outros lobos. Aproximou-se e tentou integrar-se no grupo. Para isso o líder tinha que dar permissão, o que não aconteceu. O lobo afastou-se mas foi seguindo o grupo de longe e foi acasalando com as várias fêmeas que se lhe aproximavam à revelia do resto da alcateia. Mas ele cansou-se deste jogo e seguiu solitariamente para outras paragens. Encontrou uma nova alcateia e desta vez foi aceite. O líder já velho não via nele uma ameaça e o lobo preto também não estava interessado nisso. Foi acasalando e dando novas ninhadas, aumentando a alcateia. Um novo elemento chegou e ascendeu à liderança, era o irmão que ali tinha vindo parar, o lobo preto continuou a ser mais um entre tantos.

O grupo já era numeroso e com o irmão a liderar, rumaram ao território de onde tinham sido expulsos. O doce sabor da vingança!

Nessa luta o irmão morreu e, o lobo preto, sem o querer, passou a liderar. Durante anos defendeu o território de outras investidas. Por vezes isolava-se, procurando no ventre da floresta um tempo para ele, no meio de tudo, no centro do nada.

A prole aumentou, a alcateia estava no máximo da sua força. Foi envelhecendo.

Um lobo solitário aproximou-se como ele o fizera anos antes. O velho lobo preto olhou para aquele jovem lobo, devagar virou costas e desapareceu na floresta. Tinha chegado o fim do seu tempo. Nunca mais foi visto!

Tema baseado numa série documental da National Geographic

18/04/11

Para Além dos Tempos


Ele morava no último andar de um prédio isolado de todos os outros. Perguntava-se como seriam os da sua espécie. Nunca vira nenhum. Nem ele sabia quem era. Muito pequenino fora para ali e ali crescera. Subia ao telhado e andava em redor, dali não podia sair, quatro cantos, quatro abismos.

À noite sentava-se no telhado e observava a lua, tentando perceber como é que tão grande bola se segurava no espaço. De repente viu-a. De peito branco, numa das pontas do prédio, olhava para ele. Que bicho era aquele? Nunca conhecera outro animal senão ele próprio naquele telhado e eis que ali estava um estranho. Curioso aproximou-se, mas de tão perto ficou que aquela coisa branca abriu as asas e voou sem antes lhe dar um som que ele nunca ouvira antes. Nem podia ter ouvido pois nunca ouvira outros sons que não fossem os seus.

O seu coração batia freneticamente. Vira pela primeira vez um outro ser. Um ser alado que voara à sua frente num voo gracioso.

Desceu e adormeceu, acordando várias vezes pensando ouvir o som que lhe ficara nos sentidos.

Nos dias seguintes voltou ao telhado tentando vê-la. Nada, até parecia que tinha sido em sonho que tudo se tinha passado.

Mais uma vez subira, aguardara e devagar ia descendo. Num canto viu-a de novo. Silenciosamente aproximaram-se. Fitaram-se nos olhos. Ele com as suas pupilas verticais de um azul/esverdeado, ela de olhos castanhos. Não sentiam medo um do outro, era como se se tivessem já conhecido noutras eras como seres iguais e não como agora.

E ali ficaram horas, como se o ontem fosse hoje. Sabiam que nada mais podiam fazer. O destino fora amargo incorporando-os em espécies diferentes.

E todos os dias ele subia e todos os dias ela voltava. Até que um dia ela não apareceu. A esse dia outros sucederam.

Percorreu repetidamente o telhado de quatro cantos. Olhava desesperadamente à procura do seu vulto. Já não saiu do telhado, exausto, adormeceu. Acorda sobressaltado, um arrepio percorre-lhe o pelo lustroso, algo o fitava. Abre os olhos lentamente, à sua frente, pairando, ela ali estava. Mas a sua figura era uma figura etérea, resplandecente. Olhou-a como tantas vezes o fizera. Subiu para as suas asas e num voo para além dos tempos, a gaivota levou-o para uma outra dimensão, onde podiam voltar a amar como iguais, como acontecera no passado.

18/03/11

Amar na Praia


Na praia estava pouca gente. O sol aquecia-lhe o corpo. Deitado, olhava para a mulher que, a seu lado, se deixava acariciar pelos raios solares e pela brisa que, de mansinho, soprava. Como era linda. O castanho dos mamilos apontados ao céu, fazia-se notar através do branco do biquíni. Na calcinha, quando molhada, o escuro da púbis sobressaía.

Sentia nele o entumecer do sexo, procurava, sem que ela apercebesse, escavar um pouco de areia para que ficasse menos incómoda a situação e deixava-se ali ficar pensando em várias coisas, até que o desejo passasse.

Ela levantou-se para ir a banhos e ele, atrapalhado, tentou disfarçar o embaraço colocando a mão em frente e, rapidamente, se dirigiu para a água fria. Lembrava-se que, quando garoto, a água fria era a solução ideal para arrefecer o desejo.

Atira-se à água para que não se notasse a erecção, ela também mergulha. Ao levantar-se, o biquíni molhado cola-se-lhe ao corpo. A forma dos seios apresentavam-se nítidos como se nada houvesse a tapar-lhes.

Olhou-o nos olhos, enlaçou as suas pernas na cintura dele, rodopiaram os corpos numa sintonia perfeita e, no mar, fizeram, pela primeira vez... Amor.

22/06/10

Um Prazer na Noite


O carro aproximou-se da falésia. De mãos dadas contemplam as luzes que se estendem sob os seus olhares. Tinham deixado por instantes aquele seu mundo, o corrupio da grande cidade sempre com pressa de chegar a lado nenhum. Olharam para as estrelas, não para o lado das luzes da cidade que tudo escondia, mas em sentido contrário onde a escuridão era absoluta. Só as luzes do carro denunciavam as suas presenças.

Ele passou-lhe a mão pelos ombros e aconchegou-a contra si. As suas bocas uniram-se num beijo apaixonado. Estavam sós naquele lugar! Aqui e ali cigarras batiam as asas freneticamente numa chamada para acasalamento.

Uma brisa suave acariciava-lhe o rosto, trazendo-lhe o cheiro daquele cabelo de mulher que lhe embrenhava os sentidos, trazendo-lhe sensações de prazer. A sua mão foi descendo pelo cabelo sedoso, enquanto ia mordiscando ao de leve o lóbulo da orelha, passando em seguida os lábios pelo pescoço suavemente, sentindo um frémito percorrendo o corpo dela. Olhou no seu olhar e viu nele o desejo de fazer amor, naquele sítio, naquele lugar, tão perto e tão distante de todos.

Recostou o banco para trás. Retirou-lhe as alças do vestido e o peito ficou-lhe a descoberto. Foi acariciando enquanto se desfaziam do resto da roupa. Movimentavam-se na procura de uma melhor posição para que a busca do prazer final não fosse dificultado por entraves de outra ordem que não aquele em que ambos os corpos se empenhavam.

De repente ele ouve um pequeno riso da parte dela. Curioso pergunta-lhe a razão disso. Sabendo que não tinha caído bem naquele momento esse seu riso, responde-lhe que a oscilação do carro que estava a sentir só em filmes é que tinha visto. Ele olha fixamente o rosto da mulher que estava por cima de si. Levanta-se, e veste-se. Enquanto isso ela olha-o espantada como a perguntar a razão dessa atitude. Diz-lhe para se vestir também, olha para as luzes da cidade, para as estrelas, gira a chave na ignição e, como se estivesse sozinho, vai de encontro ao seu mundo. Estava desejoso de um café, seria o seu prazer dessa noite ao som de uma bela música.

08/04/10

Beijo Roubado




Eles eram duas crianças. Cresciam e brincavam na inocência da idade. Ela e ele, ambos de cabelo loiro, corriam pelas vielas, saltavam os muros e iam juntos para a escola. Um dia, ele estava distraído no corredor da casa que partilhavam, quando ela passou, parou, deu-lhe um beijo e saiu a correr. Ele ficou surpreso e sem reação com aquele beijo roubado, pensando que algo não estava bem, que não fazia sentido aquilo que tinha acontecido. Aquilo era coisa de adultos e não de crianças como eles.

Subiu ao andar de cima e entrou no quarto. Deitou-se pensando que estava só. Mas ela também lá estava. Ouviram-se vozes em baixo de quem os procurava, esconderam-se debaixo da cama e ali ficaram. As mãos tocaram-se, os corpos uniram-se mas sem outro contacto que não fosse o sentir da pele, pois ainda não havia neles mais nada do que isso. Eram ainda puros os sentimentos. As vozes estavam cada vez mais perto e eis que a colcha da cama que os escondia se levantou e uma cabeça espreitou. Mesmo sendo crianças, toda a nudez era castigada.

Ele partiu tempos depois e foi sonhando com ela. Anos passados voltaram a encontrar-se, ela ainda tinha os cabelos loiros e filhos. Ele não lhe falou sobre esse beijo roubado de quando eram crianças, o tempo devia ter-lhe apagado da memória esse momento. Com um beijo na face, ele disse-lhe adeus e não mais voltou a vê-la.