15/02/10

A Almofada

Entram no armazém. Por todo lado, artigos de toda a forma e feitio ocupam o espaço. Num saco, ela levava um edredão e uma almofada. Duas seriam demais. No meio daquela confusão, vão criando um espaço íntimo.

Estendem o edredão, e vão colocando pequenas velas tealights nos locais superiores para darem um ar romântico ao local. Apagam a luz do armazém e, à luz das velas, deitados, dão lugar ao amor. A roupa, aos poucos, vai deixando de existir, desnudam-se os corpos. O amor é total. A luz mortiça das velas incendeia-lhes a paixão. Tudo vale no amor.

Gotículas de suor caem do corpo dele sobre o dela. Encostada à parede, ele percorre cada curva do seu corpo e, ali, sente-a estremecer de volúpia, como querendo que aquele momento não tivesse fim.

Voltam a deitar-se no edredão e continuam o jogo do amor.

Não sabem a quantidade de vezes que atingem o clímax, nunca parecem saciados

O calor era imenso, a almofada já molhada de tanto suor, estava ali a mais. Ela pega nela e atira-a para cima dos artigos armazenados.

Abraçados, extenuado, descansam de tanta luxúria. Quase que adormecem, mas um cheiro a queimado começa a fazer-se sentir. Olham para o lugar para onde ela tinha atirado a almofada. Estava a começar a arder. Sorriram por tão insólita situação. A almofada tinha caído junto a uma das velas.

Apagaram o pequeno incêndio, voltaram a deitar-se e adormeceram profundamente.

04/01/10

Prazer Oculto


Não sabia o que o impelia todas as noites para aquele lugar. Sabia, é que não podia deixar de lá ir. Lá ao fundo, as luzes da Marginal alumiavam a baía onde os reflexos eram sulcos deixados naquele mar de Luanda.

Deslocava-se a pé, como sempre o fazia. O silêncio ali era de oiro, não fosse espantar quem lá estava.

Ao lado, o cinema Miramar transbordava de gente, assistindo a mais uma sessão, num dos mais lindos cinemas ao ar livre da cidade.

Mas ali, no jardim onde ele estava, tudo era escuro. Devagar, aproximou-se do local onde ouvia uns gemidos lânguidos de rapariga. Atrás de uma moita, viu o casal. Não notaram a sua presença, fruto de muitos anos de experiência em observar os casais que ali se deslocavam pela calada da noite.

Ela, de saia subida, era impelida contra o chão pelos movimentos pélvicos dele. Os seios erectos eram mordidos com impaciência, pois quanto mais era a sensação de serem descobertos mais a adrenalina se fazia sentir. Estavam a ser observados e não o sabiam.

Ele observava aquela fúria sexual e sentia-se feliz. Desapertou a braguilha e deu-se a manipular o seu sexo, sentindo o prazer da carne que via como sendo seu.

Aos gritinhos abafados deles, juntava os seus, até que, por fim, um jorro de sémen foi depositado na terra daquele jardim.

Aguardou um pouco que o corpo voltasse ao normal. Devagar, foi recuando até se ver fora do local. Como um passeante vulgar, dirigiu-se para casa. Depois de despido, abriu a roupa da cama devagar para não acordar a mulher que a seu lado dormia. Ela, sentiu-o deitar-se, como todos as noites o sentia. Não se mexeu, a sua carne pedia também prazer mas sabia que dele já nada podia esperar. E, com o corpo tremente, adormecia como há tantos anos o fazia.

… No jardim do Miramar, as formigas levavam aquele sémen tanto delas conhecido.

05/11/09

No Escurinho do Cinema


Entro no cinema ainda as luzes estavam acesas. Procuro o meu lugar e os meus olhos pousaram em ti. Tua pele morena contrastava com a palidez do resto das raparigas que contigo estavam. Teu olhar fixou-se no meu quando caminhava pela fila que me colocou a teu lado.

No palco, a cortina grossa que tapava o ecrã, foi-se abrindo enquanto o sonoro anunciava o início do filme.

Os mais atrasados precipitavam-se em direcção a seus lugares. Olhei-te de soslaio. Os teus olhos olhavam a tela, as primeiras imagens eram projectadas na cortina que continuava a abrir lentamente. A luz ia diminuindo de intensidade, ficando as luzes de emergência acesas ainda que mortiças. A escuridão era quase completa. O filme começou, as pessoas iam-se calando depois de muitos “shiuuuu” da assistência.

Senti a tua perna a encostar-se à minha. Pensava que, porventura, tivesse sido um pequeno descuido teu. Mas insistias, comecei a sentir-me desconfortável sem saber o que fazer.

A tua mão deslocou-se através do apoio, deixaste-a cair sobre a tua saia e devagar foste-a colocando sobre a minha. Eu suava, as emoções foram-se apoderando de mim. O desconforto subia à medida que me puxavas a mão e a colocavas na tua perna.

A minha mão subiu, a tua saia, curtíssima, não impedia coisa nenhuma. Os meus dedos entraram na tua cuequinha e sentiram a humidade do teu sexo. Enquanto o filme decorria, senti o teu arfar, lentamente fui acariciando o teu pontinho sensível. Tive receio que as tuas colegas se apercebessem do que se estava a passar, mas tu sossegaste-me com os olhos brilhando no escurinho do cinema.

Depois senti em ti o relaxar, tinhas conseguido o orgasmo. Devagar fui retirando a mão. Ajeitaste a saia, a tua mão deslizou pelas minhas calças e…

As luzes acenderam-se, levantei-me e saí. Não me lembro, até hoje, que filme estava a decorrer no ecrã!

27/07/09

A Cama Partida


De mão dada abriram a porta do quarto. Na semi-obscuridade, iluminada por uma luz ténue de uma lamparina, ele foi-lhe retirando a roupa enquanto suavemente a deitava na cama. Os olhos dela brilhavam de prazer. Os dedos percorriam aquele corpo maduro de mulher, procurando nele os pontos erógenos para que ambos tivessem o clímax na mesma altura, que o prazer dela fosse o seu.

O corpo contorcia-se a cada toque, sons voluptuosos saíam da sua boca enquanto o peito arfava procurando juntar os seus mamilos ao dele num roçar sensual. As pernas cruzavam-se, apertavam-se como tenazes para que o momento de contacto se prolongasse para além do tempo.

A excitação subia conforme o prazer aumentava. Aquela cama rangia a cada nova entrega, ela, por cima dele, procurava o ritmo adequado para sentir o sexo penetrar-lhe, procurando a melhor posição para que o orgasmo fosse total.

O movimento era frenético, o clímax aproximava-se, nessa altura, a cama, junto aos pés partiu-se, os apoios não aguentaram e tinham quebrado. Mas, naquele instante, enquanto a cama abatia, ele ejaculou como nunca o tinha feito. Ela olhou para aqueles olhos, para aquele pequeno sorriso que se lhe aflorou aos lábios, para aquele rosto e viu nele todas as estrelas do céu.

A cama era testemunha que podia ter-se partido tudo que nada teria retirado o prazer do momento. E ambos, por algum tempo, continuaram abraçados naquela cama partida com os pés apoiados no chão.

14/05/09

Verdes São os Campos!...

Márcia Moscado

Pela janela, à minha frente, vejo o campo verdejante. No horizonte, nuvens espessas anunciam a chuva que se aproxima.

Sinto-me melancólico. Olho pela janela e, de olhos fechados, volto a uma casa, a minha casa, a casa onde nasci!

«Não podes lembrar-te da casa onde nasceste» - dizia a minha Mãe - «eras muito pequeno quando de lá saímos, tinhas dois anos… E nunca mais lá voltámos!»

Mãe, a casa era assim! – descrevia eu. Um corredor, com os quartos ao lado, a cozinha no fundo, onde também costuravas, e uma janela, uma janela que dava para o campo. Com a mão no queixo e o cotovelo na janela, passava horas a contemplar o verde daquele campo.

Provavelmente naquela idade ainda não sonhava! Admirava talvez o verde que se estendia até encontrar o azul do céu. Ou as nuvens espessas que se formavam como hoje… e a chuva caía, caía ora suave ora forte. O céu era rasgado pelos raios, como se uma criança pegasse num lápis e começasse a riscar sem sentido. Talvez fosse eu essa criança e usasse esse lápis. Em pinceladas, pintava aquelas nuvens mais escuras, iluminadas aqui e ali por relâmpagos,…

…E o verde do campo ficava mais vivo. Gotas brilhavam nas suas hastes erguidas para o céu.

Talvez sonhasse com um futuro belo para todos os meninos como eu. O meu cabelo era loiro como as espigas de milho. Eu era a natureza, a natureza era eu!

Hoje sou um vestígio daquilo que era, mas olho pela janela e continuo a ser o que sempre fui… Um Sonhador!