04/06/08

O Sonhador



A vida é longa e cheia de interrogações. Por vezes, perguntamo-nos qual é o sentido da nossa existência.

Será só isto? Não nos bastam as atrocidades que o Homem inflige ao seu semelhante, por motivos sociais, raciais ou políticos. Ainda temos que lidar com os conflitos familiares, conjugais ou geracionais.

Somos uma partícula do Cosmos, uma obra do Universo. Não há um Deus que nos imponha um destino, a vida segue o seu curso, a Natureza é soberana. O resto são variações da mesma espécie. Cão, gato, macaco ou homem, tanto faz.

O temor a Deus é para os pobres, não para os ricos!

Quando a Natureza se agita, tudo treme. Morre o bom e o mau, a criança e o velho. Não há milagres, há sorte.

Se alguém se salva, dizem que foi milagre. Mas esquecem-se dos milhares que mereciam igual sorte e morreram.

A Natureza não poupa os pobres. Deus não protege as crianças, os pais que morrem, os que sofrem nas mãos dos tiranos. Os homens que matam em Seu nome não merecem viver. Mas vivem!

Se eu fosse Deus, mandava um raio que aniquilasse esta geração. Recomeçaria tudo do zero e daria ao Homem a consciência de que há um Universo. E, como diz Pascal:

“Senhor, somos fios de palha perdidos no Universo”

Somos palha. Mas há quem se julgue o próprio Universo.

Se o raio viesse, gostava de estar sentado, sozinho, a contemplar a vida que vivi. Lá longe, onde o sol castiga mais.

11/04/08

Andarilho...



Sou um andarilho de mim mesmo. Percorro as trilhas da vida, sem me preocupar se um espinho me fere, um obstáculo me impede, um abismo se abre.

Gosto de caminhar entre as árvores, sentir a brisa suave da manhã, o aroma que vem da terra, do ar, das plantas, ouvir o canto dos pássaros.

Liberto-me das amarras do quotidiano. Desapegado de tudo e de todos, sigo pelos caminhos cobertos de folhas silenciadas pelo orvalho da noite, por galhos de árvores tombados pela força do vento, da chuva, pela juventude perdida e outros, viçosos, brotando num grito de esperança de que nada está acabado, que ainda há um fio, uma faísca de vida que renova em cada broto da velha árvore.

Vou porque quero ir. Sentir o cheiro do mar, o grasnar das gaivotas, o riso das crianças, as brincadeiras dos idosos, o céu azul, a linha do horizonte, as velas de um barco, o surfar das ondas. Pisar a areia, sentir a água de leve beijar os meus pés, voar o pensamento na imensidão do firmamento, traçar uma linha imaginária entre aquilo que sou e aquilo que gosto de ser…

… um andarilho de mim mesmo, um viandante do tempo!

08/04/08

Mulher d'Areia

No país de Rá, o deus do sol
Um poema em música é entoado
Dormem a cotovia e o rouxinol
E ela nos braços do seu amado

Belo rosto no peito aconchegado
Olhos entreabertos, corpo quente
No antigo Egipto, sob uma palmeira

Sarcófago com hieróglifos decifrado
Palavra doce, palavra envolvente
Dita e sentida pela mulher d'areia

Tanta ciência e tanto doutor
E a palavra era simplesmente... Amor!

29/03/08

O Nosso Tango



Encostado a uma coluna, com um cigarro nos lábios que só acendia nesses momentos para me dar um ar de “banga”, de estilo que a puberdade nos impinge mesmo que não tenhamos nenhum, mas é próprio da idade, observava mais um rodopio no salão onde tantas vezes nos encontrávamos. Outros pares dançavam, mas eu não tinha pressa. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, iríamos enlaçar nossos braços.

A esperança que me fazia voltar ali domingo após domingo era que não havia volta a dar senão as voltas ao som de uma música que nos enlevasse, nos transportasse para outro lugar onde nada mais importasse.

Os rapazes faziam sinais de longe para as “garinas”, de longe e não de perto, com medo de levar uma “tampa” e serem alvo de riso e chacota entre os amigos por esse motivo.

As músicas sucediam-se e eu sem me mexer, aguardando a música ideal.

Aqui e ali, os pais vigiavam as filhas, não fosse o “marmanjo” aproveitar-se da ocasião, afoitar-se demais e colocar a sua perna entre as pernas da menina, ou encostar-se aos seus peitos e, mesmo com “travão”, não conseguir evitar o aperto. O olhar severo do pai tudo dizia: nada de excessos!

De repente, ouvem-se os acordes de um tango. Apago o cigarro, dirijo-me ao local onde estavas com as tuas amigas.

Faço-te sinal com a cabeça, vens ao meu encontro, enlaçamos os braços, tudo parou e o salão foi só nosso.

15/03/08

O Meu Silêncio!

Glover Barreto

Se o Silêncio também se ouve, ouve então o som do meu Silêncio!