08/04/08

Mulher d'Areia

No país de Rá, o deus do sol
Um poema em música é entoado
Dormem a cotovia e o rouxinol
E ela nos braços do seu amado

Belo rosto no peito aconchegado
Olhos entreabertos, corpo quente
No antigo Egipto, sob uma palmeira

Sarcófago com hieróglifos decifrado
Palavra doce, palavra envolvente
Dita e sentida pela mulher d'areia

Tanta ciência e tanto doutor
E a palavra era simplesmente... Amor!

29/03/08

O Nosso Tango



Encostado a uma coluna, com um cigarro nos lábios que só acendia nesses momentos para me dar um ar de “banga”, de estilo que a puberdade nos impinge mesmo que não tenhamos nenhum, mas é próprio da idade, observava mais um rodopio no salão onde tantas vezes nos encontrávamos. Outros pares dançavam, mas eu não tinha pressa. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, iríamos enlaçar nossos braços.

A esperança que me fazia voltar ali domingo após domingo era que não havia volta a dar senão as voltas ao som de uma música que nos enlevasse, nos transportasse para outro lugar onde nada mais importasse.

Os rapazes faziam sinais de longe para as “garinas”, de longe e não de perto, com medo de levar uma “tampa” e serem alvo de riso e chacota entre os amigos por esse motivo.

As músicas sucediam-se e eu sem me mexer, aguardando a música ideal.

Aqui e ali, os pais vigiavam as filhas, não fosse o “marmanjo” aproveitar-se da ocasião, afoitar-se demais e colocar a sua perna entre as pernas da menina, ou encostar-se aos seus peitos e, mesmo com “travão”, não conseguir evitar o aperto. O olhar severo do pai tudo dizia: nada de excessos!

De repente, ouvem-se os acordes de um tango. Apago o cigarro, dirijo-me ao local onde estavas com as tuas amigas.

Faço-te sinal com a cabeça, vens ao meu encontro, enlaçamos os braços, tudo parou e o salão foi só nosso.

15/03/08

O Meu Silêncio!

Glover Barreto

Se o Silêncio também se ouve, ouve então o som do meu Silêncio!

22/07/07

Amor e Sexo

mulher flor

Se alguém te oferecesse flores, dirias: «É Impulse», mas não era esse o caso. Debruçado sobre a mesa com ramos de flores, um homem repetia: «Quer frôr?».

Ele olhou em volta, sem entender o motivo daquela pergunta, pois estava sozinho. No entanto, a personagem não se afastava da sua mesa, insistindo na sua ladainha: «Quer frôr?».

Ele fixou o olhar no homem à sua frente, sem o enxergar. Os contornos de um corpo surgiram na sua mente. Um corpo de mulher.

As suas mãos acariciaram-lhe o corpo, perdendo-se em cada curva do seu rosto, do seu peito, das suas axilas, do seu vértice.

Demoradamente, reteve cada pedaço daquele momento. A luz suave das lamparinas refletia-lhe um corpo maduro, mas viçoso. A cada toque seu, um murmúrio de prazer, um suave tremor, um querer sexual, mas sem pressa, como se cada toque fosse o último, como se o exalar de desejo fosse único, como se nunca tivesse amado assim.

As suas pernas, semi-fletidas, ocultavam a essência do sexo, tornando misteriosos os caminhos que a cada momento se iam descobrindo, como se o desbravar tivesse os seus custos, a sua persistência em tons de azul, como se o céu estivesse ali tão perto e tão longe.

Suavemente, os corpos entregaram-se ao amor, amor em sexo, sexo em amor. Olhos fitavam olhos, corpos em perfeita sintonia, os lábios tocavam-se, não em sofreguidão, mas com leveza.

- Quer frôr?

A essa pergunta, ele voltou àquela mesa onde se encontrava. O torpor do momento, da lembrança, extinguiu-se lentamente à pergunta que lhe era feita:

- Quer frôr?

Ele pegou numa flor, como se naquele instante voltasse a colocar uma flor na mão daquela mulher que ficou deitada na cama com os olhos semicerrados, enquanto ele descia as escadas ao encontro da noite.

12/07/07

Cajueiro Velho!...


  Olhei para ti vergado pela força do vento e da velhice, os teus braços desciam até ao chão. Em cada ramo um fruto sem fruto do teu, outrora, poder. Assim somos nós.

  Quando via meu pai envelhecendo nunca pensei que um dia também estaria na mesma situação. Era florido, viçoso na minha juventude. Dei os frutos que tinha para dar. Vi-os crescer e, sem me aperceber, meu rosto ia mudando. A um rosto límpido como água cristalina, sulcos se iam formando como aquela pedra que se atira na superfície de um lago calmo e ela salta, salta até parar e se afundar.

  Estou a ficar como tu. Já tenho no rosto sinais de velhice e da mocidade só me resta a recordação.

  Vi meu pai a definhar e morrer como um cajueiro velho. O tempo, esse tempo inexorável fará o mesmo de mim…

… Mas os meus frutos já dão frutos também!

Cajueiro velho
Vergado e sem folhas
Sem frutos, sem flores
Sem vida, afinal
Eu que te vi
Florido e viçoso
Com frutos tão doces
Que não tinha igual
Não posso deixar
De sentir uma tristeza
Pois vejo que o tempo
Tornou-te assim
Infelizmente também a certeza
Que ele fará o mesmo de mim


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