22/06/10

Um Prazer na Noite


O carro aproximou-se da falésia. De mãos dadas contemplam as luzes que se estendem sob os seus olhares. Tinham deixado por instantes aquele seu mundo, o corrupio da grande cidade sempre com pressa de chegar a lado nenhum. Olharam para as estrelas, não para o lado das luzes da cidade que tudo escondia, mas em sentido contrário onde a escuridão era absoluta. Só as luzes do carro denunciavam as suas presenças.

Ele passou-lhe a mão pelos ombros e aconchegou-a contra si. As suas bocas uniram-se num beijo apaixonado. Estavam sós naquele lugar! Aqui e ali cigarras batiam as asas freneticamente numa chamada para acasalamento.

Uma brisa suave acariciava-lhe o rosto, trazendo-lhe o cheiro daquele cabelo de mulher que lhe embrenhava os sentidos, trazendo-lhe sensações de prazer. A sua mão foi descendo pelo cabelo sedoso, enquanto ia mordiscando ao de leve o lóbulo da orelha, passando em seguida os lábios pelo pescoço suavemente, sentindo um frémito percorrendo o corpo dela. Olhou no seu olhar e viu nele o desejo de fazer amor, naquele sítio, naquele lugar, tão perto e tão distante de todos.

Recostou o banco para trás. Retirou-lhe as alças do vestido e o peito ficou-lhe a descoberto. Foi acariciando enquanto se desfaziam do resto da roupa. Movimentavam-se na procura de uma melhor posição para que a busca do prazer final não fosse dificultado por entraves de outra ordem que não aquele em que ambos os corpos se empenhavam.

De repente ele ouve um pequeno riso da parte dela. Curioso pergunta-lhe a razão disso. Sabendo que não tinha caído bem naquele momento esse seu riso, responde-lhe que a oscilação do carro que estava a sentir só em filmes é que tinha visto. Ele olha fixamente o rosto da mulher que estava por cima de si. Levanta-se, e veste-se. Enquanto isso ela olha-o espantada como a perguntar a razão dessa atitude. Diz-lhe para se vestir também, olha para as luzes da cidade, para as estrelas, gira a chave na ignição e, como se estivesse sozinho, vai de encontro ao seu mundo. Estava desejoso de um café, seria o seu prazer dessa noite ao som de uma bela música.

08/04/10

Beijo Roubado


Eram duas crianças. Cresciam e brincavam na inocência da idade. Ela e ele, ambos de cabelo loiro, corriam pelas cangostas, saltavam os muros e iam juntos para a escola. Um dia, encontrava-se ele distraído no corredor da casa que partilhavam, quando ela passou, parou, deu-lhe um beijo e saiu correndo. Ele ficou surpreso e sem reação com aquele beijo roubado, pensando que algo não estava bem, não fazia sentido aquilo que tinha acontecido. Aquilo era coisa de adultos e não de crianças como eles.

Subiu ao andar de cima e entrou no quarto. Deitou-se pensando que estava só. Mas ela também lá estava. Ouviram-se vozes em baixo de quem os procurava, esconderam-se debaixo da cama e ali ficaram. As mãos tocaram-se, os corpos uniram-se mas sem outro contacto que não fosse o sentir da pele, pois ainda não havia neles mais nada do que isso. Eram ainda puros os sentimentos. As vozes estavam cada vez mais perto e eis que a colcha da cama que os escondia se levantou e uma cabeça espreitou. Mesmo como crianças toda a nudez era castigada.

Ele partiu tempos depois e foi sonhando com ela. Anos passados voltaram a encontrar-se, ela ainda tinha os cabelos loiros e filhos. Ele não lhe falou sobre esse beijo roubado de quando crianças, o tempo devia ter-lhe apagado da memória esse momento. Com um beijo na face, ele disse-lhe adeus e não mais voltou a vê-la.

04/01/10

Prazer Oculto


Não sabia o que o impelia todas as noites para aquele lugar. Sabia, é que não podia deixar de lá ir. Lá ao fundo, as luzes da Marginal alumiavam a baía onde os reflexos eram sulcos deixados naquele mar de Luanda.

Deslocava-se a pé, como sempre o fazia. O silêncio ali era de oiro, não fosse espantar quem lá estava.

Ao lado, o cinema Miramar transbordava de gente, assistindo a mais uma sessão, num dos mais lindos cinemas ao ar livre da cidade.

Mas ali, no jardim onde ele estava, tudo era escuro. Devagar, aproximou-se do local onde ouvia uns gemidos lânguidos de rapariga. Atrás de uma moita, viu o casal. Não notaram a sua presença, fruto de muitos anos de experiência em observar os casais que ali se deslocavam pela calada da noite.

Ela, de saia subida, era impelida contra o chão pelos movimentos pélvicos dele. Os seios erectos eram mordidos com impaciência, pois quanto mais era a sensação de serem descobertos mais a adrenalina se fazia sentir. Estavam a ser observados e não o sabiam.

Ele observava aquela fúria sexual e sentia-se feliz. Desapertou a braguilha e deu-se a manipular o seu sexo, sentindo o prazer da carne que via como sendo seu.

Aos gritinhos abafados deles, juntava os seus, até que, por fim, um jorro de sémen foi depositado na terra daquele jardim.

Aguardou um pouco que o corpo voltasse ao normal. Devagar, foi recuando até se ver fora do local. Como um passeante vulgar, dirigiu-se para casa. Depois de despido, abriu a roupa da cama devagar para não acordar a mulher que a seu lado dormia. Ela, sentiu-o deitar-se, como todos as noites o sentia. Não se mexeu, a sua carne pedia também prazer mas sabia que dele já nada podia esperar. E, com o corpo tremente, adormecia como há tantos anos o fazia.

… No jardim do Miramar, as formigas levavam aquele sémen tanto delas conhecido.