23/09/13

História de um Cavalo Triste

Já tinha sido grande. Teve as luzes da ribalta centradas no seu porte majestoso, no seu cavalgar imperial, no seu trotar em compasso com as músicas de grandes clássicos, desde Schubert a Chopin.

Fazia as delícias da garotada com a sua pelagem bem tratada. A sua crina enfeitada fazia-o inchar de orgulho, era um esbelto e belo cavalo.

Os anos foram passando, as luzes foram apagando, ele foi envelhecendo. Já não era o que tinha sido. Mas mantinha a postura, orgulhoso de si mesmo, pelo que fora, pelas pessoas que tinha deixado felizes, pelo percurso da sua vida.

Um dia venderam-no. Passou a puxar carroças. Enquanto nos seus tempos áureos o chicote de quem o tinha simbolizava um gesto nunca cometido, agora um outro chicote chicoteava-o para ser mais presto no andar.

Aproximei-me deste cavalo. Magro, com as costelas à mostra, tentava comer a erva que despontava naquele terreno junto a um ribeiro de água pouco recomendável. Não havia feno que lhe enchesse o corpo, que lhe cobrisse os ossos, que lhe desse a dignidade nunca perdida, mas esmorecida pela triste vida que levava. De um jovem garboso, restava um velho não acarinhado, só lhe restava esperar pelo fim da vida.

Deixou-me chegar ao pé dele. Virou a cabeça para mim, olhos nos olhos contemplamo-nos por instantes e pensei ver uma lágrima, a escorrer-lhe pelo rosto.


Fotos e Montagem (lágrima): Mário Lima

2 comentários:

noname disse...

Tiste mas, é a história de muitos cavalos vs velhos. Nesta vida, temos valor até podermos dar, depois... nada

M Eneida Almeida disse...

Sempre com dignidade!!!