27/02/09

O Olhar!...





  Entregam-se de corpo e alma quando fazem amor. Para eles, o momento é de paixão. Não há lençóis a tapar os corpos. Amor sem limites ou fronteiras, o Amor pelo Amor!

  Depois da paixão consumada, ela aninha-se nos seus braços enquanto um torpor lhe percorre o corpo e um pequeno estremecer dá a indicação que o sono tinha chegado, e vai lá ao fundo no adormecer, onde não há nuvens negras a tapar o azul do céu. Ele fica quedo contemplando o rosto daquela mulher que o amava.

  Enquanto ela dormitava nos seus braços, recorda o dia em que a conhecera. Saído de um casamento desfeito pensava que nunca mais se iria relacionar com alguém. Tantos anos de entrega para nada. O relacionamento já se vinha deteriorando com o tempo, mas não se apercebera disso. Para ele tudo estava bem pois nunca ouvira fosse o que fosse que desse a entender que o casamento já não existia e que tudo se resumia a breves monossílabas trocadas.

  De repente encontrara-se só. Durante uns tempos, custou-lhe a adaptar-se à nova realidade. Já não havia ninguém para partilhar a cama, para breves palavras mesmo monossilábicas, sentir a presença fugaz de quem partilhava o mesmo espaço que ele...

  ... E foi-se habituando. O tempo é a melhor cura para os males do coração e habituara-se a estar sozinho.

  Olhava pela janela do café. Gente igual a tanta gente. Debruçava o olhar sobre o jornal onde as desgraças do mundo vinham logo na primeira página para prazer mórbido de quem as procura avidamente e assim as vendas estão garantidas.

  Levanta a cabeça e vê-a. Os seus olhares se cruzam como se fosse a coisa mais natural do mundo. Mas não foi. Sentiu naquele olhar algo mais que um simples olhar. Levantou-se e dirigiu-se para a mesa onde um cheiro de mulher lhe adocica os sentidos. Pega na mão dela e junta-a às suas.

  Inicialmente sente um certo retraimento, mas aquele mesmo gesto parecia que já tinha sido feito há muito muito tempo e que, afinal, aquelas mãos já se conheciam de outras eras.

  Ele volta a olhar para aquele corpo adormecido! As mãos descansavam sobre o seu peito. Uma música suave envolve-o e, olhando para ela, diz-lhe sussurrando ao ouvido: - Gosto de ti, meu Amor!